::Ratatoulle - Uma alánise gastronômica

Leia também a alánise desse filme por Leon Santiago


Você pode nunca na vida ter visto o ratinho Remy, mas é só olhar um cartaz, ou um pedaço do trailer que com certeza (e se for menina, absoluta) vai soltar um "aaawn!". Pois são exatamente esses os maiores comentários que eu ouvi até agora do filme, e mesmo sem palavras ou grandes críticas, são provavelmente os que a Pixar está mais adorando!
Vindo de uma fase meio turbulenta; a venda da empresa pra Disney, e os dois últimos longas não tão bem aceitos pela crítica e público (veja bem, comparando aos seus antecessores que foram realmente um sucesso), a expectativa da crítica só crescia (e detonava) em cima de Ratatouille. Primeiro, quando a Pixar divulgou o enredo: um ratinho francês que queria virar um grande chef de cozinha, fim. "Anh? O que? Mais uma estória de bichinho? E pra esculachar mais, de um... um... rato? Aaah, só pode estar tirando! A Pixar está afundando..." É foi bem isso que eles pensaram... e sim, disseram!
Claro que o que a crítica acha ou deixa de achar de um filme é muito importante, afinal, não estamos falando somente de cinema, conceito e arte, estamos colocando no meio da macacada (ou rataiada ;D) toda, dinheiro, reputação (que já estava meio ameaçada) e uma franquia extremamente compromissada, dependente e promissora. Dito e feito, "Então vamos mudar tudo", foi o que a Pixar disse em resposta as tão calorosas e educadas críticas construtivas. E o enredo agora era: um ratinho francês que quer ser um grande chef de cozinha conhece um humano que quer só um emprego mas não leva manha nenhuma pra nada, então os dois se encontram e decidem juntar o útil ao agradável. Aêêê! Agora sim ein, bem melhor! Colocar um humano no meio da rataiada, na França, um monte de bicho fofinho e ainda os dois se ajudando, fez melhorar muito a aceitação do longa entre todos, aí, a equipe se empolgou! Era um teaser trailer mais foda que o outro toda semana, uma novidade aqui, outra ali, site, divulgação, curiosidades, isso tudo com a maior responsa possível, aquele tipo de coisa que só a Pixar pode fazer por você. E, juntando todos esses ingredientes (entendeu? Anh?), só fez aumentar as minhas expectativas pra provar a receita final (entendeu de novo? Hahaha).
(E agora se preparem para um festival de sabores!)
O filme começa com aquele que tava todo mundo louco pra ver: Remy, o rato. Nada de firulinha pra chegar nele, nem confete, nem nada. Pra ficar bem claro de uma vez por todas: Remy não é o espetáculo, o espetáculo é o conjunto todo. E começa também com uma casa, que Deus do céu dos ratinhos, linda. Daí, em dois minutos de cena, já dá pra perceber o que vem pela frente. Cara, tudo é muito bem tratado, bem cuidado, coisa linda de se ver! Sabe, dá pra sacar o cuidado e a preocupação que os caras tiveram com cada composição, cenário, construção de personagem. Em algumas cenas aquáticas não consegui perceber se era água de verdade ou de mentira, um brilho suave em toda Paris, aquela sensação de leveza e suavidade que por alguns instantes faz você se sentir mais próximo de alguma maneira mágica. Quando Remy se molhava dava pra ver os pedacinhos da pele dele, e assim por diante, um tratamento fantástico, realmente, que deram pra esse filme.
Outra coisa que me deixou muito impressionada foi a personalidade e vindo disso a forma que deram para os personagens. Linguini, o humano amigo de Remy, era pra ser bobo e desajeitado, e ele ficou assim, só que sem parecer um bobão inútil, e sim aquele tipo de gente que você quer se aproximar e ajudar, ele parece até frágil de certa forma, assim como o Grande Chef, marrento, mal-humarado, mas que não passa de um cara mala e que não merece respeito algum, daí ele é um cotoco de gente que precisa subir na escadinha pra alcançar o fogão, saca? Nenhum deles é enjoativo e sem personalidade.
O filme é um conjunto, afinal, tudo se encaixa perfeitamente bem, trilha sonora, movimentos, cores. Só, fica minha ressalva pra duas coisas, os pezinhos dos ratos são lisos, acho que fez falta uma textura; e a mocinha do filme fica meio opaca perto do Linguini, mas só isso também. Fico por aqui na parte técnica.
Todos nós sabemos qual é o público alvo da Pixar né? As crianças. E sabemos também que eles não poupam esforços em cativar todo tipo de público, mas, acho que nesse em especial, teve um "quê" a mais. A começar pela história de cada adulto da cozinha, pelas sutilezas, como tranformar a máquina de escrever em uma caveira, ou a sala em um caixão, e também, coisa que só adulto vai ser capaz de sentir, o romantismo típico de Paris, o que faz ser mais natural todo aquele questionamento que os filmes da Pixar sempre trazem em seus personagens, em forma de dúvidas sobre amizade, respeito e confiança. As crianças riam do ratinho e nós, ríamos da desgraça de Linguini em tentar sucesso na sua vida adulta.
Tenho certeza que a Pixar acertou em cheio dessa vez, aceitou as críticas, abandonou idéias, e apresentou um belíssimo resultado pra todos nós. Só tenho que dar os meus sinceros parabéns e torcer para que venham cada vez mais Remys e Linguinis por aí; de afundando a Pixar não tem nada, continua de longe surpreendendo e encantando a todos com sua competência e resultados.