::Ratatoulle - Pixar e um toque de Sazon

Leia também a alánise desse filme por Larissa Coutinho



Há quem diga que, apesar dos gravatas serem só sorrisos, a compra da maior fazedora de dinheiro com animação da última década pela maior fazedora de dinheiro com animação do último século (e consequentemente de todos os tempos) não foi todo esse mar de rosas falantes que pregam. Foi conturbada, foi bagunçada e foi cheio de controvérsias.
O principal motivo disso é que quando a Disney comprou a Pixar, alguém muito esperto lá dentro parou, olhou pela janela todo aquele monte de pessoas morrendo de calor dentro de suas fantasias de camundongo e pensou: "HEY! Porque eu vou continuar ganhando 50 centavos a cada Rei Leão 5 vendido se eu estou pagando o ordenado de alguém que faz milhões por filme?". E da resposta pra isso, John Lasseter, o homem, o mito, o roteirista e diretor dos dois Toy Story's e uma das maiores cabeças do mundo do entretenimento virou chefe de todo o departamento de animações da Disney. E foi assim também que alguem deixou de ser chefe de todo o departamento de animações da Disney e muitas outras pessoas deixaram de fazer seja lá que tipo de coisa idiota eles faziam e a Pixar, meu amigo, virou a mesa, de uma vez por todas.
Lasseter chegou com tudo! Mandou revisar TODAS as próximas animações da empresa orelhuda, suspendeu medidas em voga (como o abandono aos longas em 2D, quem diria...), cancelou projetos (como as intermináveis continuações para DVD dos clássicos), refez contratos de licenciamentos (como o Disney's Princess e Fairyes), incorporou boa parte da cultura pixeariana (como os curtas antes dos longas) e, é claro, pôs em andamento sua vingança pessoal: doce, cruel e pessoalmente, Lasseter passou como um trator por tudo e todos que um dia já estiveram envolvidos com o que costuma-se chamar de "fatal e fatídicamente um óbvio fracasso": Toy Story 3 ("onde nossos heróis Woodie e Buzz aprontariam muitas confusões pelo mundo em um clima de muita confusão e alto astral", sem o conssentimento de Lasseter, claro).É mediante todo esse cenário de "quem é que manda aqui?" que muita gente na Disney acha que a empresa está perdendo boa parte da própria cultura na tentativa de preservar intacta a (lucrativa) cultura da Pixar. Gente que acharia bastante satisfatório um bom fracassão de bilheteria pra tirar um pouco de laquê do topete de Lasseter. Chegamos, enfim, à nova grande oportunidade para ambos os lados (e é engraçado notar que estamos falando de um rato falante): a magnífica comédia culinária Ratatouille.
Nome esquisito, tema aparentemente batido e a já não tão unânime qualidade da Pixar (há quem ache "Carros" um filme bem fraquinho. Eu não). Sob essas desculpas, Ratatouille corre o risco de fazer feio nos números, mas não há porque se enganar, estamos falando de um dos (e só não digo "o" porque não existe esse título no portifólio das Pixar) melhores longas da empresa. O que significa que está em cartaz, aí pertinho, uma das melhores animações (2D ou 3D) já produzidas.
São alguns pequenos takes (de cair o queixo, devo dizer) para sermos apresentados ao simpatissíssimo Remy, o seu ratinho falante preferido das próximas duas horas e lá vai minutos. Em tempos de absoluta saturação de bichinhos falantes em 3D, não tenho muita vergonha em dizer que eu mesmo levantei uma sombrancelha quando li a sinopse. Besteira. Confie na Pixar, descrente, ela sabe o que faz. Remy e Linguini protagonizam uma história tão, mas TÃO diferente de, por exemplo, os (chatinhos) Sem-Floresta que é até grosseiro colocá-los no mesmo saco. Ratatouille tem personalidade, é um alívio. Não tem a grandiosidade que um grande clássico pede (Mulan, Aladdim, etc etc, inexistente hoje em dia) mas é intimista, é suave. Tem uma inocênca que não descamba pra babaquice ou pra infantilidade. São ótimas duas horas e meia de total imersividade das quais se seguirão meses de breves sorrisos de lembranças e aquela vontadezinha de assistir de novo só pra lembrar de como Linguini fala mordendo o lábio.
O potencial de apego do longa é grande. Linguini é um fenômeno! Seu tipo "desengonço" de ser é febrilmente acentuado por uma animação rápida e a direção perspicaz de Brad Bird (o cara por trás d'Os Incríveis, outro que compartilha 80% dos adjetivos desse texto), matando em questão de segundos qualquer tipo de dúvida sobre o grau de clichêrismo do rapaz. O "design" dos personagens é marcado, faz com que mesmo os secundários instiguem um maior aprofundamento e reforça uma qualidade visual que vai muito além da simples (e, convenhamos, impecável) técnica de renderização. O nome disso é estilo.
Há um questão muito importante nas recentes fábulas da Pixar que parece passar batido mesmo pra quem tenta um olhar mais crítico sobre a coisa toda: Não há vilão. Marlyn não tinha um vilão na sua busca por Nemo assim como McQueen não tinha um vilão para deixar de ser arrogante. Se trata de desafios pessoais, de auto-reflexões e, pra valer, de superar os próprios obstáculos. Anton Ego, um personagem muitíssimo acima de qualquer média de vilões (mereceria até um parágrafo próprio) simplesmente não é o vilão do filme. É uma caricatura, uma sátira, é uma esnobada e uma cutucada de Bird à simploriedade com que a maioria de filmes infantis trata a questão do "vencer". Em Ratatouille não há luta, não há ódio. Ego é um objetivo. Esse tipo de lição e esse tipo de herói são cruciais na forma com que eu divido uma boa e uma tosca história infantil. Eu sou adulto e ainda tenho muito a aprender com boas histórias infantis.
Ratatouile é a melhor (senão a única boa) surpresa dessa temporada de verão. Personagens cativantes, visual de tirar o fôlego, roteiro gostoso e bem escrito. É um longa que exibe com orgulho a qualidade muito além da técnica que só a Pixar consegue manter em se tratando de animações. É clássico com um quê de ousadia, é infatil sem deixar de ser inteligente, como tem sido desde Toy Story, e antes, desde The Adventures of André & Wally B.
Ratatouile é o fruto das decisões acertadas da Pixar, um filme delicioso do começo ao fim.

Ps. A crítica de Ego ao Ratatouille daria um texto desse tamanhão à parte.